Na casa ao lado, há um casal de evangélicos com dois filhos: um na faixa dos seis anos e o outro de apenas dois meses.
O homem, aparentando uns 41 anos, cabelos prateando as fontes, estatura mediana, toca violino, simpático, trabalha de dia. Sua mulher, com óculos na face, toca órgão, na faixa de uns 38 anos, sem brincos ou penduricalhos que lhe tire a beleza imaculada. Cuida da casa o dia todo.
Na parte de cima da minha casa, há uma sacada, onde, em baixo, situa-se o quintal da casa do casal. Um amplo quintal: comprido, estreitando no final como um pedaço de pizza, encontrando uma churrasqueira de alvenaria. -cujo aproveitávamos, quando a casa encontrava-se vazia, pra fazermos churrasco, bebermos cerveja, falarmos da vida alheia, de musica, arte, política e conversa fiada.
Pois bem, nessa sacada, na qual citei anteriormente estava eu, agora, dando um “tapa na pantera” e pensando na vida, na morte, dentre outros.
À minha frente a linha da Avenida Paulista sentido centro/oeste. Do meu lado direito a serra da Mantiqueira comprova o norte.
De repente a leveza proporcionada pelo principio ativo do Kaya fez com que eu derrubasse o bendito cigarro no quintal da casa!
A parte de baixo da minha casa é no nível do chão da deles, com muro de uns 1,58cm dividindo o quintal do jardim de minha “baia” (como dizem em POA). Fiquei debruçado nesse muro, por mais de 30 min pensando no que fazer. Entre mangueira, uma árvore de louro, bromélias, cannabis sativa, orquídeas, plantas de diversas espécies e formigas que trabalhavam, sem parar, carregando sua matéria orgânica para fim de cultivar fungos pra que possam se alimentar. Isso por cima de meus pés e braços.
A senhora não aparecia por nada pra que eu, com coragem, pudesse pedir-lhe o tal cigarro com a desculpa de que a criança maior dela poderia ver, pegar, pelo constrangimento, pelo respeito. Enfim, eu o queria de volta.
Logo, ela apareceu com o bebê recém nascido, que não parava de chorar a algum tempo, e colocou o carrinho com o menino ao lado do Banza, não me viu e entrou na cozinha. Andava de um lado a outro, e não me via debruçado no muro.
O sol situa-se bem a frente do meu rosto, em direção ao carrinho e a Massa. Saí do local desesperançado.
O bebê chorava. O carrinho já não se encontrava lá. A mulher fazia aqueles ruídos com a boca - jeitinho de falar com criancinha, pra acalmar o garotinho. O Refém continuava lá, gritando por socorro.
Já pensei em pular, mas não saberia onde colocar a cara se a mulher me pegasse dentro do quintal dela atrás de algo ilícito.
Se ela me visse, enquanto debruçado no muro olhando a criança com um ar puro e inocente, eu perguntaria:
- Oh senhora, como está grande o menino! Assim, iniciando uma conversa pra que a coragem de pedir viesse à tona.
Fiquei matutando a idéia de pular alegando uma roupa minha q havia caído, caso ela me flagrasse no quintal da casa dela.
Porém, encanei q a mulher me olhava de algum lugar onde eu não pudesse vê-la...
Logo, voltei ao debruçar no muro olhando em direção a porta da cozinha, com o mesmo sol na face que ainda não se abaixou suficiente e nada de aparecer ninguém.
O tempo que fiquei nessa observação teria dado tempo de pular, caminhar uns quatro, cinco metros e meio até o local do Desamparado, retornar mais uns sete metros, pois o muro fica menor no final do terreno em direção à churrasqueira, e voltar feliz e realizado com a façanha bem sucedida. Mas coragem me faltou, pois ela encontrava-se na parte de baixo da casa.
Quando, de repente, ela apareceu com um saco de lixo na mão. Eu já tava com a idéia de pular e pronto!
Foi quando ela voltou e fechou a porta. Senti um ar de que ela havia me visto olhando pra casa dela e, com medo, fechou a porta. Só pra aumentar minha encanação.
Saí de cena meio desesperado.
Voltei, pois eu não poderia desistir da missão.
Lá fui eu olhar de novo como anda a situação.
Penso em desistir do resgate. Pois, as horas vão passando a vida também...
A porta que divide a cozinha pro quintal onde esta o Solitário, é de quadriculados de vidro, com aquelas divisões de ferro e massa, tipo durepox e não dá pra ver direito dentro. Acho que ela me vê e eu não a vejo.
Já ta se tornando uma tortura isso tudo.
Se eu ouvir o som do órgão eu pulo! Estou aqui pensando, confabulando...
Tenho que recupera-lo, pois minha reputação como vizinho iria por água a baixo se eles pegassem o Ganja e não aparecesse o dono.
(Tô loco pra ouvir o som do órgão)
Mais uma vez, retirei-me do local de observação.
Fui lá novamente, dessa vez determinado a salvar o Refém de dentro do quintal do vizinho.
Peguei um shorts cor-de-rosa da minha mama e coloquei-o no ombro determinado a pular.
A janela do quarto da criança e, ao lado, a sacada do quarto do bebê refletia. Assim, não deixando com que eu pudesse ver se a senhora me vigiava ou não.
Antes, eu havia subido na parte de cima aqui de casa e analisei o anfiteatro. Percebi que, anteriormente, eu havia feito um erro de metragem, dizendo que a distância da minha missão de resgate era de quatro metros e, na volta de cinco metros. Desconsidere amigo. Essa distância tem, aproximadamente, de sete a nove metros. Mas mesmo assim, eu já estava, definitivamente, certo da invasão.
Desci, foi ai que peguei o short de Francisca, minha mãe, coloqueio-o no ombro e subi no muro com a ajuda do canteiro que cerca as arvores e plantas do jardim. Respirei fundo, fechei os olhos (não nessa ordem), olhei pro Meu Amigo e pulei em direção do salvamento. Caminhei sereno, porém rápido. Disfarçadamente peguei-o do chão, ajeitei o short que quase caia do ombro e retornei pro pulo da volta. Olhei pra trás, tomei impulso frente ao muro, coloquei o cigarrinho na boca, e subi no muro. UFA!
Desci com o coração palpitante e o sorriso na face.
Após toda essa odisséia, sentei-me pra poder me estabilizar emocionalmente e respirar compassadamente. Percebi que no meu antebraço esquerdo havia ficado resquícios de toda a missão: escoriações seguidas de um pequeno hematoma, no qual, foram causados pelo apoio no muro ao tomar impulso pra subir no mesmo.
29 de ago. de 2006
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